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Quinta-feira, Julho 26, 2007

Hêêêêêêê!!

Que engraçado!!!
Depois de ano eu volto aqui neste blog, olho pra quase tudo que eu nele escrevi e eis que " - Quanta bobagem!!! "
hehehehe


Talvez seja ocasião de pensar: eu "cresci"?
Que engraçado!


Vamos lá!
Um novo ciclo!
Desta vez vou recomeçar a atividade no mesmo blog, mas mudo-o de nome.
"reatividade" deixou de ser representativo pra mim (ando crescendo demais...?), a gente vai conhecendo os conceitos e de repente vamos tendo que afinar a fala...


posted by julie @ 19:35 -

Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

Faz tempo que eu não escrevo em enigmas, falar em lacunas, falar por lacunas - acho que os sentimentos só se deixam dizer por lacunas. Saber escrever é dar espaço pra as palavras. Palavra apertada entre palavra não ressoa. Acho que saber escrever é fazer ressoar. Nosso silêncio às vezes vale mais. O grande problema é acertar a medida.

Escalas de virtudes... aiai. Não existe fórmula mágica pra consertar as coisas. As coisas não se consertam (talvez porque jamais se tenham estragado).

Há várias maneiras de alcançar a iluminação. Você pode virar um monge ou uma monja e ir pra bem longe meditar o dia inteiro. Você pode também se manoeldebarrosar: atingir a felicidade admirando por exemplo um par de lagartas. Acho que a felicidade é causa e conseqüência da simplicidade. Nós não somos numa cultura simples. A gente tem medo da simplicidade, aqui onde a gente vive. A gente foge dela - e a gente nem percebe.

Um passarinho me contou: Pra voar, tudo o que ele precisa é bater as asas.














posted by julie @ 16:10 -

Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

Outro dia eu cheguei à conclusão de que quando a gente pensa em termos de rumos do planeta Terra a partir do século XXI, do desenvolvimento do capitalismo mais a devastação física, mental e espiritual da pós-modernidade tecnológica, só mesmo uma completa revolução cultural e espiritual massiva poderia transformar a visão apocalíptica que se forma do planeta sob todos os ângulos.

Falo de uma "completa revolução cultural e espiritual massiva", não algo como uma transformação de hábitos de fora pra dentro na vida da humana a exemplo daquela acontecida a partir do século XVIII com o nascimento da indústria, mas talvez algo mais como aquela profunda transformação cultural de dentro pra fora sugerida, diz-se, por um único homem no século primeiro. Uma revolução espiritual, realmente, que descambasse numa revolução cultural massiva. Daqueles "marcos-zero" históricos abarcando sociedades inteiras que talvez se repitam à distância de milênios. Dá pra crer que é possível, se a gente forçar um pouquinho uma visão histórica mais distânciada.

Não há campanha política que impeça a progressão apocalíptica (sim, eu insisto nesse termo) dessa nossa cultura. Ou uma mudança vai atingir a alma (ou o que o valha) dos indivíduos habitantes do nosso planeta e frear esse nosso ritmo, ou provavelmente a gente vai queimar mesmo.



[estes pensamentos estão em progressão no momento, tô pensando sobre a pequenez da nossa existência, mas não posso continuar o texto agora, já já eu volto]

posted by julie @ 21:16 -

Segunda-feira, Dezembro 18, 2006















A aprendizagem nunca termina.









posted by julie @ 22:09 -

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Sabe? As coisas que eu consumo eu entendo como parte da minha existência como ser-político na terra.

Todas as nossas ações constituem nossa pessoa política, é importante que entendamos isso. Não existe ponto sem nó.

O consumo é uma das mais importantes dessas nossas ações cotidianas hoje, se lembrarmos que os rumos do planeta são hoje decididos por uns poucos "entes" que sobrevivem unicamente do nosso consumo.

Isso tem um peso do cão, né.

E eu gosto de ser uma pessoa coerente.

Se eu tenho inúmeros motivos pra ter um pensamento anti-corporativo (e cada vez me aparecem mais, basta pesquisar um tantinho), e realmente acredito neles, não faz o menor sentido eu continuar consumindo tantos dos produtos que alimentam essas corporações em questão.


É em boa parte por essa lógica que eu estou pouco a pouco reduzindo e deixando de lado o consumo de grande parte dos alimentos industrializados ou processados. Já deixei absolutamente de lado o consumo das carnes animais - essa que é uma das indústrias mais danosas e sacanas que há! -, estão rareando o ovo e leite de vaca em todas as suas formas da minha gama de consumo também.

Os alimentos são apenas uma parcela do nosso consumo em vida.
Mas transformam-se numa enorme parcela, quando lembramos que dentre as maiores das maiores indústrias do mundo hoje, está a indústria alimentícia. Indústria esta que está em consórcio com as indústrias farmacêutica, química (agrotóxicos, etc.) e de biotecnologia (transgênicos, etc.). Que estão em consórcio com a indústria bélica. Que estão em consórcio com o governo dos EUA (basta pesquisar os integrantes do governo desse país que também integram o conjunto de acionistas nessas indústrias). Que estão em consórcio com a OMC e as demais instituições de regulamentação internacionais.

Os alimentos transformam-se também numa enorme parcela do nosso consumo e existência política quando lembramos que alimentos são um produto que consumimos todos os dias, invariavelmente.
Quando lembramos que são produtos trazidos às prateleiras dos supermercados ao fim de um processo de produção que envolve muitas pessoas e condições nem sempre muito legais de exploração do trabalho e dos recursos da terra.
Quando lembramos que os hábitos alimentares são parte e influência da nossa cultura e que esta nossa cultura fluida e normativa é constantemente reinventada e remodelada a fim de sempre corresponder às necessidades comerciais das grandes indústrias do mundo.



Naomi Klein no seu livro "Sem Logo" diz logo ao início que enxerga o anti-corporativismo como "o próximo grande movimento político". Uma movimentação de caráter urgente, e tanto por sua urgência quanto por sua evidência, de caráter apaixonado. Uma movimentação que se estruturará cada vez mais fortemente, mais solidamente, numa articulação e cooperação globais.

Cada vez mais pessoas percebem que por trás das questões que afetam cada região, cada causa diferente, por mais distantes e isoladas que estas possam parecer, existe um mesmo "inimigo" em comum, e este é o interesse corporativo. Basta buscar as relações.

Neste mundo nada é isolado, nenhuma ação, nenhuma crença, nenhum hábito, nenhum problema, nenhum acontecimento. Todas as coisas a nossa volta constituem uma cadeia de ações e reações, causas e conseqüências, maquinações. Não existe ponto sem nó.

Talvez desde o início do desenvolvimento da tecnologia de marketing a serviço das indústrias, da estratégia do "branding", responsável pelos rumos do desenvolvimento do capitalismo no século XX, e da tomada do tempo e do espaço do mundo globalizado pelo poder do capital, praticamente tudo o que nós vemos a nossa volta faz parte de uma estruturação desenvolvida para determinar nossas condutas, nossos desejos, nossas crenças, nossas formas de pensar, nossas formas de sentir.


A marcha corporativa está encaminhando a vida no planeta terra para uma cataclisma absolutamente irreversível. O caráter de urgência do despertar anti-corporativo se dá nesse sentido. É preciso interromper essa progressão antes que a vida na terra seja completamente alterada em direção a uma esterelidade irreversível. A liberação da transgenia já é algo hediondo. A idéia da transgenia em si, é algo hediondo.

Vandana Shiva, essa grande mulher, alerta para o que representa a transgenia e a legitimação do sistema de patentes de formas de vida e de conhecimentos. Num mundo regulado pelo capital, domina essa idéia abstrata, essa busca cega pela geração de lucros. Tem praticado-se a conversão do máximo de "coisas" em mercadorias, em propriedade, a fim de sugar capital de tudo quanto for possível. É muito difícil hoje achar alguma coisa que não tenha sido transformada em mercadoria. E se houver, o provável é que em breve ela seja transformada.
E tudo já foi feito para aumentar os mercados: nos jovens anos do imperialismo as potências capitalistas expandiram seus mercados geográficamente através da construção de "colônias" de dependência econômica e industrial espalhadas pelo mundo. Nos recentes anos do capitalismo, já com toda a extensão do mundo globalizado transformada em celeiros de consumidores, as indústrias buscaram expandir seus mercados por exemplo através da inflagem da faixa etária de consumo (sexualização precoce na infância = "adultização" precoce = construção de pequeninas células de potencial de consumo gigantesco na figura da criança com desejos estéticos compráveis. E também a venda da idéia de uma terceira idade saudável e juvenil, sendo esta jovialidade sempre atrelada à sua capacidade de consumo). De maneira que o ser humano ou "cidadão" é também um "consumidor" por um maior período de tempo da sua vida, consumindo mais - criando mais mercado sem necessitar de mais pessoas.
O planeta inteiro transformado num grande batalhão de consumidores, de todos os sexos, cores, idades, tamanhos, preferências, gostos, etc. Não há mais como expandir o mercado.
Porém o capitalismo mostrou funcionar como um câncer, como uma coisa em necessidade de constante expansão, de superação. Se não é possível expandir mais os mercados, faz-se necessário expandir algum outro elemento na equação da geração de lucros. Que expanda-se então a gama daquilo que pode ser apropriado como mercadoria.

Mas como criar uma nova forma de mercadoria, uma nova forma de propriedade a ser explorada pelas indústrias?
A partir de algo completamente impensado?

É então que entram a engenharia genética e o sistema de patentes. E é também aí que entra a questão da água neste princípio de século. Mas focando-se primeiramente naquelas duas, segundo a análise aguçadíssima dessa maravilhosa pensadora e cientista indiana, Vandana Shiva, a engenharia genética surge nesta etapa do capitalismo como um mecanismo de criação de um novo tipo de propriedade. Um mecanismo de transformação da vida em propriedade privada. Da mesma forma como o sistema de patentes, que serve tanto para formas de vida quanto para conhecimentos (com o conceito de "propriedade intelectual").

Agora, como se já não bastasse a astúcia dessa fusão de forças industriais que comporta as indústrias química, farmacêutica, biotecnológica e alimentícia, em criar uma nova forma de propriedade privada a partir do que é e sempre foi patrimônio da Terra, elas o fazem a partir da única coisa indispensável à vida humana, que não é categorizada como um desejo, mas sim como uma necessidade, ou mesmo um direito, ou seja, a comida. Cite uma categoria de produtos com geração de lucro garantida em qualquer circustância mercadológica do planeta Terra:

Comida.

A gente não pode viver sem comida, é dependência garantida. É mercado garantido.

Aí você pergunta "ué, mas a gente já compra comida de um jeito ou de outro". Sim, nós compramos alimentos industrializados ou alimentos "in natura" produzidos por outras pessoas. Mas se você quiser ter a sua plantação de milho, de trigo, de tomate, seja lá o que for, você pode, basta que você tenha espaço pra isso. Plantas são formas de vida da natureza, elas estão por aí na Terra, bem como suas sementes, que não são de propriedade intelectual de ninguém (deus? =oP), não possuem marca registrada, podem ser usadas por quem as coletar.

Mas não uma semente transgênica. Uma semente transgênica contém uma seqüência de código genético patenteada, que representa seu status de propriedade privada de uma empresa. Condição a partir da qual, qualquer utilização dessas sementes passa a ser permitida mediante compra, e pagamento de royalties, e a utilização das mesmas sem a autorização da empresa constitui roubo!

A questão se agrava quando vem à luz o fato de que uma vez inserida no meio-ambiente, uma planta transgênica pode cruzar com uma planta não-transgênica através do vento ou de muitos outros meios, num processo absolutamente fora do controle humano. Esse cruzamento origina uma espécie completamente desconhecida possuidora da seqüência transgênica - ops!: seqüência P-A-T-E-N-T-E-A-D-A!

Captou a idéia?
Uma plantação não transgênica vizinha a uma plantação geneticamente modificada pode ser infectada pela espécie trangênica e tornar-se transgênica. Tornar-se possuidora da seqüência patenteada. O que a torna automaticamente propriedade da empresa detentora daquela patente.

Há alguns anos vêm ocorrendo nos EUA, no Brasil e em outros lugares do mundo, processos movidos pelas empresas de biotecnologia acusando de roubo agricultores que tiveram suas plantações infectadas por plantas trangênicas!

Sentiu o drama? A Vandana fala, enquanto a Monsanto tenta colocar no mercado seu trigo geneticamente modificado: "Então o mundo inteiro acha que o que a Monsanto quer é o controle absoluto sobre o trigo geneticamente modificado. Eu digo - não! - o que a Monsanto quer é o controle absoluto sobre o trigo."

A engenharia genética e o sistema de patentes são ferramentas descobertas pela indústria com a finalidade de tranformar plantas, dentre outras formas de vida da Terra, em propriedade privada, em marcas registradas.


A água vem trilhando um caminho parecido no planeta à medida em que as fontes de água e os direitos de distribuição de serviços hídricos em várias partes do mundo vêm sendo comprados por algumas gigantes empresas.
Algumas delas, até grandes conhecidas nossas, já ouviu falar na Nestlé? na Coca-Cola?

A Nestlé é um caso à parte, um caso à partessíssimo, merece um post só pra ela. Só aqui no Brasil ela já é dona de quatro marcas de água mineral engarrafada diferentes até o momento. Caso você não saiba, pertencem à Nestlé Waters as águas:

. Petrópolis
. São Lourenço
. Levíssima
. Nestlé Pure Life

Tem também a água da Coca-Cola, a Bon'áqua, que eu não sei se é a única dessa empresa, e tem as bizarrices mercadológicas como as "águas com gosto", como por exemplo essa "H2OH!" da Pespi espalhada pelas outdoors da cidade inteira.

Ainda volto para falar mais da Nestlé algum dia, se hover quem me ouça.

Mas o que acontece é: a gente lê esse tipo de coisas, a gente se revolta, mas a gente volta pra casa e a gente toma um "Nescau", toma uma coca-cola. Pois eu digo NÃO! Não vou tomar coca-cola, não vou comprar Nestlé.
Eu não concordo com a conduta dessas empresas! Não vou alimentá-las! Não vejo sentido, não é coerente!
Que discurso ainda vazio é aquele que levanta o anti-corporativismo mas "não resiste a uma picanha" de carne do agrobusinness cheia de hormônios antibióticos e destruição ambiental; que não abre mão dos chocolates da Nestlé (e seus tantos outros produtos) ou nem ao menos deseja abrir mão deles, mesmo sabendo das infelicidades dos processos que tornaram aquele produto possível.

Será que é isso mesmo? Me ajudem a pensar sobre essa questão! Pois é isso que tem me parecido...

Nosso consumo diz muita coisa sim e tem muito poder sim, apesar do que muitos de nós nos convençamos a acreditar, comodamente!
Ainda mais ante a perspectiva de uma articulação em escala global que vem se tornando cada vez mais possível graças ao sentimento de identificação entre as pessoas afetadas por opressões corporativas no mundo todo; graças ao fortalecimento das redes de atividade espalhadas pelo mundo através principalmente da internet e de outros meios de comunicação!

Imagina organizar uma consciência em escala global de não-consumo de tais produtos, de tais empresas, e fortalecer essas idéias e divulgá-las pra mais pessoas. Qualquer movimentação mais coesa passa a atrair mais pessoas, enquanto que focos dispersos se perdem em força. É possível sim utilizar o não-consumo como uma importante arma política, de preferência sempre acompanhado de outras práticas, né.
Não só possível, como necessário.
Não apenas necessário, mas urgente.

Essa movimentação já está se estruturando, se articulando ao redor do mundo. E começa a crescer. Tem muita vida, muito gás, muita paixão, essa movimentação. Eu quero tomar parte nela. Eu quero ajudar a frear essa cega e insana corrida corporativa.

Eu vou ajudar.

Eu estou ajudando.

Eu, você, aqui, agora.

A gente é parte da História, a gente faz História.





Eu quero sabe o que vocês acham.

posted by julie @ 05:05 -

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Tem certas informações que foram relegadas a guetos.
(Foi a maneira que se achou para sufocá-las, ante a impossibilidade de ocultá-las inteiramente).
Precisamos aprender não a gritar - palavras de ordem, frases de efeito e imagens emblemáticas de protesto provam-se repetidamente ineficientes -, mas a comunicar.
Explodir os limites do gueto.
"Todos deveriam saber disso..."


Achei que você devia ver isso...




Me aguardem.

posted by julie @ 19:56 -

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Hoje eu fui a uma biblioteca pública.
Dentre outras coisas, li O Pequeno Príncipe.
Durante a leitura, por um momento, fechei o livro e o olhei.
A imagem do pequeno encadernado de papéis com letras não anunciava o tamanho do universo que acolhia dentro.
Olhei a meu redor:
era o Infinito acomodado em prateleiras.


***

Livros são maravilhosos.
Bibliotecas são silenciosas explosões de tudo.


***

O Pequeno Príncipe, lê-lo, me fez como as coisas que emudecem das palavras a capacidade de falar do tamanho.
E encontro-me pequena como um príncipe.
E é tudo pequeno, como o seu planeta (o dele).
E mesmo assim, é tudo o mundo.

E tudo fica imenso.

Dirijo-me a quem pudesse entender.





posted by julie @ 19:49 -

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

vegetarianizando-me

posted by julie @ 19:39 -

Domingo, Agosto 06, 2006

"Obrigado por fumar" ("Thank You For Smoking")

Nunca fui muito de ficar falando sobre os filmes que vi por aí nos meus blogs que tive, mas ontem eu vi um filme especial. Adianto que "especial" não prevê necessariamente uma crítica positiva a respeito do que quer que se critique, por exemplo neste caso, vai meio que pelo contrário.
A crítica, também, não é uma "crítica" ao filme (somente), muito menos uma "crítica de filme". É um conjunto de coisas que o filme me fez pensar sobre este nosso irônico mundinho.



No filme, uma ótima comédia, acompanhamos as peripécias do herói, o charmosérrimo Nick Naylor, homem de frente da indústria do tabaco, porta-voz desse que é um dos maiores 'lobbies' do mundo e, possivelmente, o mais atacado.
Seu trabalho se resume na odisséia de defender a imagem da famigerada indústria tabagista a fim de manter a fonte sempre farta para os bolsos bilionários dos acionistas do cigarro, esses mesmos que sabidamente regozijam em cima da doença e deterioração alheias. Tarefa simples assim, né, nestes dias de informação à vontade e inúmeras campanhas anti-tabagistas e em que o 'politicamente correto' parece ter virado moda.

Ao filme pode-se tentar encaixar nessa recente (e aparentemente lucrativa) tendência, a dos documentários denuncistas que, ágeis e sarcásticos, resolveram expor a podridão do funcionamento das corporações transnacionais ou instituições governamentais (cite-se "Super Size Me", "The Corporation", Michael Moore, etc).
Com a diferença de que é uma ficção, não um documentário. E com algumas outras diferenças também.

Ao longo do filme nos são apresentados aqueles números e fatos embaraçosos para a indústria do cigarro, como o de mortes causadas por ano (por mês e por dia), bem como os subornos silenciadores milionários e os históricos acordos também milionários com Hollywood e a indústria do cinema pela popularização e sensualização do hábito de fumar, por exemplo.

A questão, que vira aí a questão crucial, é o formato do filme. A forma como são colocadas todas essas informações e todo o desenrolar do filme. A começar pelo foco. O protagonista do filme é o 'lobbyist' de uma das maiores e mais sangue-sugas indústrias do mundo. É simplesmente o responsável pelo aparato de manipulação bilionário com que alguns pou(r)cos exercem controle sobre seus bilhões de dependentes no mundo inteiro, usando termos levantados pelo próprio filme. É a personificação máxima daquilo que o capitalismo tem de mais vil e é esse o herói loirinho bonitinho e charmoso por quem de alguma forma torcemos ao longo do engraçado filme. Sim, engraçado, porque é uma bela de uma comédia. É engraçado quando nos faz achar graça de um menino com câncer que, envolvido pelo charme e a retórica do lobbyist, aperta a mão da indústria tabagista, personificada em Naylor, em horário nobre e cadeia nacional; é engraçado quando mostra um velho e debilitado antigo garoto-propaganda da Marlboro aceitar um suborno pra calar a boca sobre sua saúde; é engraçado quando mostra qualquer movimento anti-tabagista como uma mera plataforma política vazia e construída por radicalismos risíveis (inclusive a "ala anti-tabagista" do filme só tem nerds, geeks, gente feia e nada "cool"); enfim, é muito engraçado quando mostra cada triunfo do maquiavelismo de Naylor. Por uma simples questão de ponto de vista faz com que nos identifiquemos com Nick Naylor, e soa muito engraçadinho por exemplo quando ele diz pra o filho dele de doze anos como se fosse o melhor exemplo a se dar no mundo que o requerimento básico para se ser um 'lobbyist' é "uma certa flexibilidade moral" (ainda exemplifica essa "flexibilidade moral" com um advogado que defende um assassino de crianças)...

E eu me via rindo de tudo isso. Quando reparei que, puta merda, eu não acho nada disso nem um pouco engraçado. Mas nem um pouco, nem um pouco mesmo.

Foi quando começou a ficar tão clara pra mim a percepção desse movimento. Não podemos esconder, então vamos ridicularizar. Não interessa mais tentar encobrir fatos. Não interessa às indústrias tentar abafar as verdades nefastas sobre os processos e conseqüências de seus produtos, porque não há mais como negá-las! As pessoas não são mais tão ingênuas quanto antigamente e informações transbordam por aí, por todos os lados, impossíveis de serem silenciadas. Faz-se necessária então uma outra forma de anular o impacto dessas informações e eventualmente descobre-se no cultivo da indiferença a grande estratégia a ser explorada pelas arquiteturas do aparato de construção de subjetividades midiático.
No princípio os responsáveis pela propaganda tabagista (estenda-se-o também às suas irmãs, indústria do álcool, da fast-food, etc) devem ter surtado de pânico com as vindas a público de tantas informações sujas e incriminantes sobre suas práticas e seus efeitos colaterais. Meu deus, como sair dessa agora, e manter as pessoas acreditando que elas devem consumir nossos produtos? Mal previam que uma forma muito mais rica de manipulação se construiria, do que a simples omissão da verdade. Não mais esconder. Pelo contrário, alardear. Porém... de uma maneira mui particular.

Primeiro, fazer por onde atribuir aos discursos que não lhes interessam ares de retrogradismo, ou de um radicalismo, ou de qualquer coisa pouco "atraente", ainda que de forma muito sutil, para então construir - tão bem como só o poder multi-bilionário dos conglomerados capitais que nos cercam poderiam construir - uma cultura anestesiada ao peso das informações. Construir uma grande indiferença. Construir um enorme "foda-se".
Transformar coisas realmente muito sérias em piada e assim roubar-lhes o impacto. Esvaziar das informações seu caráter indignante, transformando-as em "discursos batidos", um "papo chato", a partir do momento em que todo mundo já sabe disso... Fazer com que nós nos acostumemos. A gente vê uma comédia toda sarcástica que ainda por cima se pinta de crítica à indústria, ri à beça, sai do cinema se sentindo completamente ciente das verdades e portanto perfeitamente habilitados a ignorá-las categoricamente.
A sensação que nos resta é mais uma vez "o mundo é assim mesmo, a vida é assim", quando voltamos pra casa querendo ser Nick Naylors (mesmo que não admitamos).

As formas que o "sistemão" manja para aniquilar qualquer movimentação que lhe cheire de ameaça. Ele as vira de cabeça pra baixo. Sabota a sabotagem.

Hoje eu estou pessimista.





posted by julie @ 22:21 -

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Eu quis treinar minha digitação ao teclado de escrever posturando as mãos tais qual mãos de pianista, o pulso mais elevado, os dedos - todos! - mais ágeis, móveis e certeiros, mais íntimos com a superfície de trabalho e, claro, sem olhar para o teclado.
Ao conseguir, o triunfo e uma constatação:
Tivesse antes aprendido a plantar plantinhas.


posted by julie @ 15:23 -

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Hoje, no trânsito de alguma parte pacata e pobre do centro da cidade, no sinal vermelho, eu num ônibus, ele numa vã, eu vi um homem chorar.
O homem dirigia a vã e ela vinha vazia. Paramos por um longo tempo no engarrafamento do sinal. Eu e ele, lado a lado, dispostos pelo acaso.
Ainda não chorava, não por fora, mas por dentro certamente o fazia há muito tempo. A dor que vi no perfil dele latejava; ele, imóvel, fixava qualquer nada à sua frente, com uns olhos de tristeza, o rosto abatido.
Rosto de um bronco - traços fortes e brutos, masculinos, barba por fazer, já um pouco grisalho, rugas das vivências, e o jeito de ser uma muralha humana.
E os olhos tristes da muralha humana começaram a encher. Desejei poder abraçá-lo.
Ele mantinha a mesma expressão, a mesma posição, desde que parei a seu lado, era uma estátua.
E a estátua principiando a encher dos olhos, eu senti a sua dor, e senti o mundo parar.
Meu olhar sobre ele era quase sólido, as paredes do ônibus podiam senti-lo, mas ele não sentia.
E por fim uma lágrima vazou.
Eu, como ele, já nem ouvia mais as buzinas.
O homem se mexeu: secou com as costas da mão a face esquerda, a que eu via, e depois a direita.
E então me viu que o olhava.
E olhou para mim.
A densidade do meu olhar tornou claro que eu o observava.
Que o via nu.
Tentei sorrir uma espécie de sorriso de compaixão.
Ele entendeu.
Fechei os olhos e o abençoei.
Quando abri-os, andaram os carros: ele seguiu viagem e eu segui viagem.

posted by julie @ 17:58 -

Quarta-feira, Junho 21, 2006

Alguém me ajuda a me entender?!
eu hein!

Mas eu queria que a vida fosse um eterno Corpus Crisis. Bem, posso afirmar que a vida é uma eterna crise e os corpos, ah!, os corpos estão absurdamente em crise, mas não é isso que eu queria. O que eu queria é um eterno Corpus Crisis, o encontro mesmo, não precisava ser em Brasília, podia ser no mundo inteiro. Utopiso, utopiso, utopiso.

Palavra ou palavras nenhumas que eu pudesse colocar aqui iam dizer qualquer coisa sobre o que senti aqui em Brasília (onde ainda estou, sim), talvez só o desejo de que fosse pra sempre e sempre. Mais uma vez me sinto criança, eu que já estava deixando disso...



Foi lindo.

posted by julie @ 02:53 -

Domingo, Maio 28, 2006

Experimentações:


O macho é um tipo biologicamente fadado à competição. Como um urso que precisa provar ser o mais forte o tempo todo. Para acasalar. Para perpetuar a espécie.

A gente tem um louvor cego à natureza. Nos faz perder alguns detalhes. A natureza não é bonita; a natureza não é justa; a natureza nunca foi nem nunca vai ser igualitária. Não é piedosa, não presta caridade, nem ama ao próximo. Ela só pensa em si mesma, na verdade ela faz TUDO o que for preciso para sobreviver.
Na natureza não existe ética, muito menos moral. Sua lei maior sempre foi a do mais forte: quem nasce forte se dá bem; quem nasce fraco - AZAR! -, MORRE. Na natureza, sempre o meu umbigo acima de tudo.

A natureza nunca teve igualdade.
Fraternidade? rá... Uma mão lava a outra: "se for bom pra mim, eu te ajudo". Assim se pautam todos as relações naturais. Altruísmo? haha, essa é boa...
E liberdade? Você acha que a natureza dá liberdade?
A natureza é equilíbrio. É muito esperta: se equilibra para se manter.
Qual é o instinto mais básico que une sob uma única bandeira desesperada TODO E QUALQUER ser vivo como parte da natureza? O instinto de sobrevivência.
Todos os seres vivos são escravos do seu instinto de sobrevivência, do seu impulso de auto-preservação, da sua fuga desesperada da morte.

A sobrevivência é dessa forma assegurada, na esfera individual (espécime) e na esfera coletiva (espécie). O indivíduo teme a morte, foge da da morte: sobrevive. Mas o papel que desempenha inconscientemente para a natureza no sentido da sua perpetuação não se finda na sua obediência ao instinto elementar da auto-preservação enquanto indivíduo. Seu segundo instinto mais básico e complementar, que da mesma forma escraviza todos os seres vivos, desempenha sem ao menos perceber seu papel na perpetuação das espécies: o instinto da reprodução.
Impulso sexual. NECESSIDADE sexual.

Amarrando o âmago de todos os seres vivos a esses dois instintos (auto-preservação e reprodução), os mais básicos e elementares possíveis, mutuamente complementares, dos quais não podemos escapar, a natureza assegura sua continuidade, através da continuidade das espécies (que jamais escolheram existir, quanto mais continuar).

E como um perfeito exemplo da astúcia da natureza, esses dois instintos se cruzam na prática. Características transmitem-se hereditariamente, logo, o parceiro deve ser escolhido criteriosamente. E qual se faz o critério? Aptidão à sobrevivência. O macho mais forte é o mais apto à sobrevivência no cenário hostil que é o mundo natural, logo, sua prole será também a mais forte. Dessa forma torna-se óbvio como os mais fortes têm o "direito" de acasalar, em detrimento dos mais fracos. Faz-se necessário a cada macho, então, estar constantemente mostrando sua virilidade, sua força, sua capacidade. E muitas vezes não basta que se seja bom, ele precisa ser o melhor. O maior. O mais forte. O macho é um tipo biologicamente fadado à competição. Criam-se jogos de poder, nascem disputas, guerras. Tal como um cachorro que urina em todos os postes, os machos devem marcar sua presença, se anunciar. Demarcar território. Tal como uma marca de uma empresa, ele dever se anunciar, se afirmar, provar SEMPRE o quanto ele é bom, vender seu peixe.
O macho não pode nunca mostrar insegurança. Quando se trata de sobrevivência, um menor deslize ou hesitação no olhar podem ser determinantes. Sendo assim, a convicção e determinação máximas são sempre esperadas de um bom macho. E assim ele desperta a libido de todas as fêmeas, e todas lhe querem os genes pra suas proles. E ele as fecunda todas, quantas vierem, seu instinto nunca lhe doutrinou com contenções, apenas diz "reproduza-se". E quantas mais o querem, tantas mais o quererão: se ele é querido, é porque ele é bom.
O macho esté sempre em guerra, em competição. Precisa se afirmar. Luta por poder, precisa demarcar, precisa submeter.


Voltando à natureza, no mundo selvagem cada um sabe de si. O terreno é sempre hostil, todos os atos são justificáveis: não há culpa. A natureza não tem pena de ninguém então na natureza ninguém pode ter pena.
A natureza é um sistema perfeito que funciona voltado unicamente para sua própria continuidade. E não quer saber se em nome dessa continuidade as suas partes constituíntes (os seres vivos) sofrem. Ela não dá a mínima para os indivíduos que a constituem, apenas obriga-os através dos instintos que lhes outorga, a continuar existindo, em nome da sua própria existência. Porque paradoxalmente ela não existe sem eles. Eles a compõem.

A natureza me lembra um outro sistema muito mal-falado. Nele não há igualdade nem fraternidade, não creio que haja liberdade, muito embora essas três idéias lhe tenham servido de alavanca. Nele os fortes se fortalecem e os fracos sofrem e morrem. Ele é cruel, maquiavélico, muito bem maquinado para a sua própria sobrevivência. É também estruturado no princípio básico do "o meu umbigo na frente". Também não dá a mínima para suas partes componentes e indivíduos integrantes, enquanto estes desempenharem seu papel de mantê-lo vivo. Também não lhe interessa saber se em nome de sua continuidade seus componentes sofrem. Também, paradoxalmente, não existe sem eles.



(?)

posted by julie @ 22:14 -

Domingo, Maio 07, 2006

Pediram-me pra explicar que maluquice era essa de colocar um "x" no lugar do "o" em várias palavras, como faço em muitos textos meus, respondo logo para todxs. =)

A "linguagem inclusiva" é uma coisinha interessante que conheci através dos meios libertários (o que não quer dizer que seu uso lhe seja exclusivo - até porque os mesmos não compõem um universo delimitado/delimitável), eu lhe chamaria mais de "linguagem universalizada", mas "inclusiva" também fica bom.

Seu uso é bem claro: substitui por letra indefinida (e indefinidora) o padrão masculino no caso de referência a um grupo misto ou indeterminado, padrão esse que se firmou juntamente com a academização da língua, refletindo a insignificância histórica da mulher.

Bem, eu não quero compactuar com a insignificância da mulher, não sei se para esses fins a linguagem inclusiva desempenha qualquer papel visível, mas gosto da sensação, quando escrevo qualquer coisa com seu uso, de lembrar da presença de mulheres que normalmente seriam subtraídas dos relatos dessa forma sutil com que age a padronização pelo masculino.

Não uso a linguagem inclusiva na fala, que eu saiba não temos em português um fonema que se coloque no papel duplo de masculino e feminino, e aquela coisa de falar "meus amigos e minhas amigas" o tempo todo (usar sempre as duas formas) não me caiu na praticidade ainda (sei lá se irá algum dia). Deixo-a só com a escrita informal.

Essa é uma outra questão pertinente à idéia da linguagem inclusiva. Seu uso em meios informais, e a acusação de que deles nunca poderia sair, quero dizer, que nunca seria adotada formalmente na língua acadêmica.
Não considero que esse seja argumento para desqualificar a insistência no uso dela, considerando que eu mesma bem acho que o planeta já se tenha extinguido antes de chegar o dia em que essa linguagem pudesse alçar a possibilidade de ser normatizada academicamente pelos meios responsáveis. Mas acho que seu objetivo não seja mesmo esse.
Como disse, me convenço da bem-feitura de seu uso cada vez que me lembro durante a escrita de fazer uso dela, que é o mesmo que lembrar que as mulheres existem naquele contexto e são dignas de serem referidas, da mesma forma como também os homens o são. Tal recordação colocada na escrita relembra não só a mim, mas também às/aos eventuais leitoras/es, residindo aí a maior parte do seu propósito.


posted by julie @ 13:50 -

Quarta-feira, Maio 03, 2006

Crônica em torno de um cigarro


Sentei-me na frente do computador a fim de escrever o maior romance de todos os tempos. Percebi rapidamente que precisava me sentir uma excelentíssima intelectual esnobe e cheia de merda para ser capaz de escrever com tal segurança. Mais do que isso, eu queria me sentir uma intelectual esnobe e cheia de merda que tivesse plena segurança de tudo aquilo que escrevesse. De um súbito uma imagem se formou na minha cabeça, não tive ao menos tempo de resistir: precisava fumar um cigarro.
E foi exatamente o que me pus a fazer.
Não sei se por acaso ou por destino, tive a fortuna de cair de pára-quedas na faculdade de uma profissão em que aprendemos a imitar com baratos similares cenográficos os componentes da mais perfeita ilusão dos sentidos. No que meu braço dirigiu-se mecanicamente à gaveta onde mantenho folhas de rascunho, gaveta posta estrategicamente a meu alcance, e tomou uma folha usada de uma só das faces, com qualquer coisa da época de escola - época esta que para fins de imersão na personagem eu deveria acreditar longínqua, longínqua - e rasgou-lhe um pedaço pequeno, uma tira. Fez então um rolinho pouco mais espesso que um lápis comum, a face branca voltada para fora, passando uma camada de cola branca mesmo, com o dedo, pra fixar o pequeno cilindro alvo, já, tão simples assim, repleto de significação - um cigarro.
Faltava alguma coisa, mas o quê, tomei um isqueiro que sempre guardei para fins de qualquer coisa e queimei-lhe uma das pontas que deixei queimar por um tempinho até apagar-lhe num sopro. A chama se desfez mas a ponta seguia a queimar tal como um incenso, tal como um cigarro, e me pus a observar demoradamente a fumaça que dali saía, segurando com displicência calculada meu cigarro entre os dedos indicador e médio da mão direita. A visão me divertiu, de fato, um cigarro impecável, que objeto transbordante de significados, eu já era de repente a personagem completa, sentia-me capaz de rasgar a foto do papa em público.
Arrisquei uma tragada - simulada, que nunca aprendi a tragar -, o gosto me incomodou, pelo que apaguei a brasa da ponta e satisfiz-me de todo apenas com a visão e o tato do cilindro branco de ponta queimada entre meus dedos e entre meus lábios. Simulei também um cinzeiro que pus no descanço entre o teclado e o monitor de forma a tê-lo bem em vista; o cigarro branco compondo-me a cena e a personagem mesmo quando o pusesse em repouso. Senti falta de fumaça que me garantisse a verossimilhança do cigarro deitado ao cinzeiro, para o que matei dois coelhos numa só cajadada: alguém da casa tivera-me a bondade de passar um café justamente no preciso momento em que dele me aprecisava para complementação da cena. Ora, cigarro e café. Café e cigarros. Café soltando ainda fumaça. Que mais me faltava? Nada, considerando que por acaso antes mesmo do início de todo o movimento eu colocara um estonteante disco do Piazzolla para tocar em meu aparelho de som (antes fosse uma vitrola!) e este envelava todo o desenrolar dos fatos, fazendo as vezes de ambientação sonora, a mais perfeita para completar o conjunto.
Nunca em vida que empunhei um cigarro, sendo ele de uso meu; no máximo segurei algum brevemente para alguém que tal me pedisse por qualquer motivo, fazendo-o ainda a contra-gosto a saber do terrível mau-cheiro que deixaria em minha tão pura mão... mas não por isso ficou minha interpretação de fumante constante a dever qualquer coisa; as manias, "tiques", trejeitos de fumante eu bem trazia guardados em meu imaginário perceptivo, como o faz, na verdade, qualquer pessoa, fumante ou não - por serem eles, os trejeitos e manias, os responsáveis por compor toda a mística do fumante -, ainda mais sendo eu observadora compulsiva como sou. A displicência no lido com o cigarro entre os dedos (digitando muitas vezes com pequeno em mãos), o jeito de levá-lo à boca, soltá-lo em posse dos lábios, tragar-lhe apaixonada e demoradamente, degustando-o com prazer, devolvê-lo ao entre-dedos e tomar um gole de café, deixando a expressão do rosto contorcer-se de deleite ao chegar-se alguma passagem especialmente rica e emocionante da obra de arte em piano-violino-e-acordeon de Piazzolla... Não esquecendo de quando em vez dispensar parte da imaginária cinza a se formar na extremidade sobre o cinzeiro o qual tratei de incrementar com algumas falsas bitucas amassadas típicas dos arredores de um típico intelectual-fumante-compulsivo. Sentia-me a perfeita intelectual-fumante-compulsiva. Toda esnobe e cheia de merda, pronta para escrever o maior romance de todos os tempos. Tudo apenas com o auxílio de um pequenino objeto cilíndrico repleto de significações, que não por sua química (ou não por ela apenas) se faz capaz de iludir seu portador com a sensação de altivez e segurança de que carecemos, de que a nossa sociedade (ou a nossa sociabilidade) nos faz carecer, repito, não por sua química, mas por sua mística.
Que bom que por acaso ou por destino tive a fortuna de cair de pára-quedas nalgum jeito em que aprendi a imitar com inofensivos similares cenográficos os perversos objetos-signos-psicológicos viciantes, e escapar-me assim da usura promovida pelos mesmos, sanguessugas de nossas fraquezas.
E empunhando meu cigarro cenográfico me fiz capaz de escrever não (ainda - e permito-me ousar o "ainda" somente por influência do efeito psíquico arrogante do cigarro) o maior romance de todos os tempos, mas a minha primeira e melhor crônica, meta-linguando, uma crônica em torno do cigarro.

posted by julie @ 21:59 -

Segunda-feira, Maio 01, 2006

Tenho na cabeça um mundo de coisas a desenvolver sobre o orkut, mas a preguiça me atrasa. Hoje li uma reportagem no Globo sobre o dito cujo e tomei um pedacinho dela como alavanca para começar com algumas das idéias........ a reportagem falando dessa novidade do orkut que deu o que falar.



"A notícia pegou muito usuário do Orkut de calça curta. De uma hora para a outra o Google decidiu 'entregar' os xeretas de perfis alheios e passou a comunicar aos usuários quem andou passando por lá.
A princípio, a ferramenta parece ser útil: permite saber quem se interessou pelo seu perfil, fotos, scraps e, de quebra, descobrir quantas visitas seu perfil recebe diariamente."

-> "A princípio" TODA ferramente do orkut "parece ser útil", e de fato o são, mas a pergunta é: útil pra quê (e pra quem)? Em verdade, o que acontece é que uma sorrateira (nem tanto) doutrinação cultural se configura lentamente a partir do uso constante do orkut (acompanhado de fotologs etc), através de cada aparentemente inofensivo e divertido recurso que a teia social oferece. Isso sem nem entrar nos papos conspiracionistas do orkut, ainda. Vou desenvolver isso algum dia e ponho aqui.
Continuando a reportagem:


"Para a maioria, no entanto, a decisão não foi tão bem-vinda. Chamado de 'psicopatização', o hábito de bisbilhotar a vida 'orkútica' dos amigos saiu prejudicado.
Logo depois do aviso do Google, começou uma movimentação de usuários incomodados com a 'entregação': perfis falsos passaram a ser criados - quem não desabilitou a função já deve ter recebido visitas de nomes exóticos, num fenômeno que deixa claro que o povo quer, sim, é bisbilhotar."

-> Nunca tinha visto esse termo "psicopatização" em referência ao dito hábito. Pessoalmente o chamo de voyeurismo de orkut...
Mas indo ao que interessa. Por vezes refere-se ao tal hábito quase que como uma anomalia dentro da proposta do orkut, quase como se tivesse surgido acidentalmente. Ora raios. Não é necessária uma pesquisa muito profunda para se perceber que toda a estrutura do orkut, em tudo o que ele oferece, funciona de modo a fomentar justamente essa bisbilhotagem da vida alheia - e não só dos "amigos"! De onde conclui-se que a bisbilhotagem não surge por acaso, sendo, pelo contrário, um dos hábitos que o orkut se exime para difundir e naturalizar, desde o seu princípio.

E outra: essa constatação de que a maioria dos usuários não aprovou a novidade por perder sua invisibilidade não é exatamente precisa.
A nenhum usuário foi negada a continuidade da possibilidade de xeretar a todos de forma irrastreável: a função é OPTATIVA. Aqueles cujo único reclame fosse a suspensão de sua invisibilidade poderiam desativar a função e ter seu orkut exatamente da forma como ele sempre foi.
Acontece que essa novidade trouxe para todos nós bisbilhoteiros um gostinho de todo especial, que é justamente saber que não somos os únicos voyeurs, mas que tudo aquilo que fazemos nos perfis alheios também fazem no nosso... permite-nos saber quem andou nos xeretando por aí...
O que verdadeiramente desagradou aos insatisfeitos, eu arrisco, foi ter de pesar na balança o que para nós falaria mais alto - a vontade de passear pelos perfis com o conforto da invisibilidade ou a vontade de saber quem esteve a passear pela nossa própria vitrinezinha virtual, não podendo-se optar pelos dois ao mesmo tempo.

Fica claro que grande parte do fetiche do orkut está não só em "espionar" os outros, mas também em saber que se é observado.
Num primeiro instante isso é interessante de se pensar, mas logo logo eu me aterrorizo ao pensar no "prazer de se saber que se é observado", neste mundo pós-11-de-setembro em que se busca alimentar o desprezo pela privacidade em prol da "segurança". Numa época em que cada resquício de privacidade deveria ser defendido com unhas e dentes.....

Saindo um pouco do orkut, nesse quesito, a tecnologia assusta. Espionagem hoje em dia é uma questão puramente tecnológica. E o que assusta mais ainda é pensar que de todas as ferramentas de dominação já utilizadas até hoje na história da humanidade, a alta-tecnologia é a que tem o seu domínio mais essencialmente guardado às mãos dos detentores do grande capital. E não poderia ser de outra forma, considerando-se o que é a tecnologia e a forma como ela é feita (pra a qual eu não sei se há alternativa).




Minhas piras no orkut continuam.....

(e a reportagem do globo não pus inteira, saiu hoje no caderno INFO etc do Globo que sai toda segunda-feira freqüentemente trazendo reportagens sobre o mundo virtual que deveriam ser lidas - criticamente! - por todos, a fim de pensar o mundo que está sendo construído diante dos nossos olhos e pelas nossas próprias mãos!)

posted by julie @ 22:38 -